Perdoe seu ladrão

Perdoe seu ladrãoVocê perdoaria a pessoa que te roubou? A designer Bruna Caldeira, de 29 anos, não apenas perdoou o ladrão que invadiu a casa dela, no bairro Floresta, na região Leste da capital e, enquanto ela dormia e levou diversos pertences, há cerca de duas semanas, como criou uma página no Facebook para incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo. 
 
"É uma forma das pessoas desabafarem sobre a situação que viveram, e de se livrar do rancor que ficou, porque quando guardamos esse sentimento ruim, a gente sempre perde algo. A melhor forma para começar a perdoar essas pessoas, é o desabafo", explica.
 
Na página "Perdoe o seu ladrão", que já tem quase 1.500 adeptos na rede social, a designer pede para as pessoas enviarem uma carta ao ladrão que a roubou, da mesma forma que ela fez e postou. Na carta de Bruna, ela conta o prejuízo que teve. "Olha, você levou várias coisas materiais (notebook, hd, mochila, dinheiro, objetos pessoais). Mas o que me doeu no fundo da alma não foram os bens, e sim meus arquivos que estavam dentro dos meus bens, inclusive os do meu hd. Ele contém todos os meus trabalhos profissionais de design gráfico de anos, a forma como eu construí a minha vida, minha sobrevivência, minha utilidade no mundo. Tudo o que eu desenvolvi para meus clientes com muito carinho e dedicação, sempre fazendo o melhor que eu podia para ajudá-los com meus conhecimentos", diz.
 
Ela ainda discorre sobre a ingenuidade do ladrão, em não mensurar o mal que poderia ter causado: "Posso pensar que você já tinha planejado tudo e que você quer o meu mal, mas prefiro a ideia de que você nem sabia o que estava levando. Prefiro pensar que você não sabia que ele era algo importante para o meu sustento e minha vida e que você, de fato, não queria me impedir propositalmente de trabalhar levando o meu material. Posso pensar que você é do tipo que acha que quem trabalha seguindo as regras da lei, e gasta o seu tempo trabalhando são otários, enquanto poderiam pegar atalhos desonestos. Mas prefiro pensar que você não é contra estas pessoas, que não quer que elas se extinguam do mundo e não acha que é certo invadir e roubar. Mesmo sem te conhecer, quero muito acreditar que você é capaz de ter discernimento moral, consciência, vergonha e arrependimento."
 
Ainda na carta que tem o ladrão de Bruna como destinatário, ela confessa que no primeiro momento sentiu ódio dele e até desejou a morte do homem. "Mas ao mesmo tempo, veio um estalo interno de que era preciso reagir a tudo e usar a experiência a meu favor, me tornando uma pessoa mais forte e mais determinada. Levantar bravamente e lutar. Era uma nova oportunidade para eu tentar realizar sonhos adiados ou paralisados. Para ser mais confiante, e para aumentar a minha fé", conta.
 
"E agora eu busco te perdoar, para eu poder ficar mais leve. O fato de eu querer te perdoar significa que eu não quero ter raiva ou ressentimentos da sua pessoa. Não significa que eu não gostaria de ter meus bens devolvidos ou que não desejo que você pague a dívida que fez com o sistema. Não desejo mesmo o seu sofrimento. Mas desejo o que for necessário para o seu crescimento, o que for preciso para que você reflita sobre as consequências dos seus atos e se torne uma pessoa bem melhor, que você pode ser. Para que possa enxergar que as suas necessidades pessoais não estão acima dos direitos básicos dos seus semelhantes. Acho que os atos mais difíceis de serem perdoados são aqueles que você jamais consegue se imaginar cometendo também. Busquei compreender os seus motivos, apesar de não te conhecer, tento imaginar", continua a designer.
 
Para finalizar, ela ainda agradece o ladrão por não ter cometido nenhum ato de violência contra ela ou a família, já que estavam todos em casa no momento do crime. 
 

Bruna acredita que o ato da pessoa que a roubou, ainda desconhecida, foi marcante em sua vida. "O que gostaríamos era de viver em um mundo onde não fosse necessário trancar as portas, ter cadeados, cercas elétricas. Pois todos se respeitariam. Gostaríamos de um mundo mais livre onde pudéssemos confiar nos outros e não temê-los. Não acredito nisso que falam, que a polícia não prende o ladrão, que ninguém está interessado em fazer justiça, que o brasil é um país sem solução. Nada disso é verdade, são apenas crenças negativas a respeito do mundo, mensagens para nos tornar covardes e temerosos. Nosso mundo está passando por diversas transformações, está amadurecendo e evoluindo cada vez mais. E estamos cercados de gente que cada vez mais consciente de seus atos e lutando cada vez mais para uma sociedade mais justa", diz.
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